sexta-feira, 5 de maio de 2006

A queda vertiginosa



O nosso corpo é como a montanha russa. Desde a infância até à louca adolescência, ele estica, cresce, desenvolve, acelera. Alguns de nós, os mais loucos, puxamos pela máquina e aceleramos pela vida porque é um crime desperdiçar a potência da máquina. Sem regras.
(Também é preciso ter sorte para nascer numa máquina topo de gama mas a natureza é bondosa e neste caso dá em fartura à maioria das criaturas.)
Quando chegamos aos 30 anos o nosso corpo começa a dar sinais. Até certo ponto, talvez até aos vinte e tal, mais coisa menos coisa, nem se dá por ele. Já não estica, já não apetece mexer tanto, já não desenvolve, mas funciona.
E depois chega-se aos trinta.
Passar dos trinta é como a montanha russa. Quem fez bom uso da sua máquina e experimentou a montanha russa pelo menos uma vez, sabe o que é subir, subir, subir, devagarinho e em segurança, até àquele patamar em que o carro quase pára. Aí percebe-se que a gravidade não admite ser contrariada. E de repente vislumbra-se, com terror, a queda vertiginosa que nos estava preparada. Mas verdade seja dita, ninguém se mete na montanha russa por outra razão senão a queda!
E é assim algures depois dos trinta. Periclitante, a máquina pára por instantes e ficamos na corda bamba do equilíbrio, mas sabemos que vai para baixo, inevitavelmente para baixo, e o frio na barriga que nos vai dar. É mesmo uma questão de tempo.
De repente as coisas deixam de funcionar. Se não é um pé é uma mão, se não é o pescoço é o tornozelo, se não é a cabeça é o coração. E se dantes a máquina se auto-regenerava, agora já não é bem assim. A máquina está cansada e não desenvolve. Só há uma saída airosa. Quando cair, deixá-la cair com o mesmo entusiasmo com que subiu.
Para os que acreditam que há uma segunda viagem, há que apreciar esta. Para os que não acreditam, é obrigatório apreciar esta.
E a queda também.

Alternativa

Viajar pela Europa com óleo de fritar

Um ambientalista escocês parte quinta-feira do Porto para Lisboa em mais uma etapa de uma viagem pela costa ocidental da Europa num automóvel movido a óleo vegetal usado, disse à agência Lusa o próprio.

Antony Berretti partiu em 24 de Abril de Calais, França, com destino a Brindisi, no Sul da Itália, onde conta chegar dentro de «12 a 15 dias», seguindo sempre junto à costa.

«A data de chegada está dependente do tempo que demorar a arranjar óleo», disse Berretti, explicando que tem estado a viajar gratuitamente, dado que só utiliza como combustível o óleo de fritar já usado que pede em restaurantes e hotéis.

O automóvel é um Fiat Scudo 1.9 Turbo Diesel de série, que Antony Berretti adaptou para circular a óleo vegetal.

O ambientalista reconheceu que a combustão provoca um cheiro por vezes incomodativo, que varia consoante o óleo tenha sido utilizado para fritar peixe, carne ou batatas, mas sublinhou que se trata de um combustível muito menos poluente do que os derivados do petróleo.

Antony Berretti está a viajar sem qualquer apoio ou patrocínio, pretendendo apenas demonstrar que é viável a utilização de energias alternativas não poluentes.

Para descrever o projecto, Berretti criou uma página na Internet, que actualiza diariamente com informações sobre a viagem.

«Até agora, não tive problema nenhum com o carro», afirmou.

Berretti chegou ao Porto terça-feira e dirigiu-se de imediato ao Museu dos Transportes e Comunicações, por saber que está lá guardado o primeiro automóvel que entrou em Portugal, mas a sua presença surpreendeu os responsáveis da instituição.

Fonte do museu disse à Lusa que Berretti terá enviado mensagens de correio electrónico a alertar para a sua chegada ao Porto, mas nenhuma foi recebida, pelo que não foi possível preparar atempadamente qualquer sessão.

Depois de uma segunda noite na Pousada da Juventude do Porto, Berretti parte quinta-feira para Lisboa, de onde seguirá para Gibraltar e Barcelona.




Página do aventureiro aqui.

quinta-feira, 4 de maio de 2006

O que fazer

Do comentário no post anterior:

Nao costumo falar destas coisas até porque sinceramente vejo muito pouca gente interessada em mudar o quer que seja, mas pelo o que escreves, há já um tempo, parece que se fosse por ti mudavas muita coisa... e isso é bom ter opinião e lutar pelos ideais e pela falta de respeito e condições.


Exactamente, o que fazer? Basta de palavras. E tentarei ser concisa porque o diagnóstico já está mais que feito e tenho muita blogosfera para ler.


O cancro do país: a Justiça

É primeiro dever do Estado, qualquer Estado, garantir a Justiça, impôr a lei e a ordem. É este o príncipio da civilização, de qualquer civilização. Em Portugal vive-se em impunidade quase total. Quando se é rico e/ou poderoso, então, vive-se mesmo em impunidade total.
O que temos assistido, não só em matéria de justiça económica como criminal, com casos a arrastarem-se pelos tribunais durante anos até prescreverem, tem que acabar!
O problema, a nível criminal, é óbvio. Mas a nível económico, que não parece tão grave porque não são crimes de sangue, tem minado a auto-confiança do país, e destruído as pequenas e médias empresas, tirado direitos aos trabalhadores, prejudicado os consumidores, arruinado vidas. Podia passar a noite a dar exemplos mas há-os demais por aí, basta olhar em volta.
É preciso que a culpa não morra solteira. Esse é o primeiro passo para o país se endireitar. Não é por acaso que a palavra chave é o Direito. (Não sou advogada por isso sou insuspeita.)
Ora, os senhores juízes não gostam de horários? Fazem bem, eu também não. Trabalhem por objectivos. Limpem as salas dos processos e processos que se arrastam. Os juízes não chegam, faltam funcionários administrativos? Numa altura em que se fala em funcionários públicos a mais? Remetam-se para combater este flagelo. Faça-se, acima de tudo, Justiça. E quando se fizer justiça desaparece a impunidade. Ver a justiça fazer-se é a melhor prevenção (e educação) contra o crime. E contra a corrupção. E contra a cunha em vez do mérito, e contra o amiguismo e o "favorzinho" em vez da legalidade.
Faça-se Justiça e o país muda. Sem Justiça, mais vale esquecer.
Já agora, en passant, dignifiquem-se as forças da autoridade antes que as milícias tomem conta do que é dever do Estado tomar conta. No dia em que as milícias tomarem conta do Estado, o Estado morreu.

O que pode o cidadão individualmente fazer?

Somos pequeninos e a corrupção é grande. Mas podemos, primeiro que tudo, deixar de ser ignorantes. Não estou a falar em ler os Lusíadas. A educação é um pilar do desenvolvimento mas há muito que estamos num sub-patamar de ignorância em que a maioria já não sabe dar valor à educação. À medida que foram acordando, vão redescobrir que ser ignorante é muito pior que ser inculto. É preciso saber mais de política do que de futebol. A interna e a externa. Não é ler os Lusíadas, é ler os jornais. Ou ver televisão se não chega o dinheiro para os jornais.
Saber, entender, perceber. Compreender o mecanismo para ver claramente o que o encrava.
Acordar outros.
Dizer a verdade.

E, acima de tudo, uma coisa que o país precisa desesperadamente:


Amor

As pessoas precisam de amar.
Sim. As pessoas precisam de amar as outras pessoas. Vê-se cada vez mais egoísmo e cada vez menos amor. A lei da selva a isso conduz. Não é preciso ir buscar o amor à religião. O amor é a tal solidadariedade de que se fala muito e se sabe pouco.
É preciso comprar menos e dar mais.
É preciso partilhar mais o que se ganha.
É preciso gastar menos e dividir mais.
É preciso pensar mais nos outros e menos em nós.
É preciso fazer isto, em sociedade, se queremos que a sociedade resulte. De outro modo a sociedade não vai resultar nunca, mas nunca, mas nunca.

É a hora.

terça-feira, 2 de maio de 2006

Procura-se

Macho para fazer filhos para fins de reforma e segurança social.

Dutch courage

Dutch Courage

1. Courage resulting from intoxication.



Finalmente percebi porque é que as pessoas bebem. As pessoas bebem porque têm medo.
Agora já tenho uma boa desculpa.
Hahaha!

sábado, 29 de abril de 2006

"You come at last", she said. "I have waited too long."

"It was a dark road. I have come as I could", he answered.



J.R.R. Tolkien, The Silmarillion





Eu estou bem. Sobrevivi. Estive doente. Agora convalesço.
Para os que acompanharam a situação, estou a trabalhar. Para os que acompanham o meu blog desde o princípio (já deve haver poucos), o ser em metamorfose de 2003 transformou-se finalmente numa crisálida de beleza discutível. Mas cada perda é uma libertação.
Aprendi muitas coisas nestes meses de silêncio. Ouvi medo, desespero, revolta. Vi muitas coisas que não posso contar agora. Sei que acreditariam no que vos digo porque as pessoas que me lêem há muito tempo sabem muito bem de que têmpora é feita esta verdade. Mas o tempo é de silêncio e quis o destino que eu esteja silenciada. Talvez um dia, depois da revolução, eu possa contar as minhas memórias e as atrocidades a que assisto diariamente. Agora não posso. Já fiz o que pude para acordar uns quantos e preocupar uns outros (alguns, gente de bem cujo único defeito é ver demais). Agora que passou o tempo dos oráculos e chegou a escuridão, agora que se calaram as sirenes de alerta, é tempo dos que têm ouvidos ouvirem e dos que têm olhos verem. Todos os dias acorda um, e grita. Mas é tarde para gritar. Agora é tempo de agir. Enquanto isso, durmo. Acordem-me quando acordarem.

E eis que regresso para um país simplex. A medíocridade já não tem medo de se anunciar. E eis que regresso para um mundo cada vez mais complex onde a medíocridade dos que nos governam não tem a menor hipótese de sobrevivência. Hoje termina o ultimato ao Irão. Cabe-nos agora perceber claramente se o mundo islâmico tem afinal razão, se nos tornámos decadentes.
Por falar em decadência... O que foi escrito recentemente num dos comentários do Tapornumporco espelha bem o retrato do nosso país, embora tenha sido escrito, curiosamente, sobre a União Soviética:

A tecnologia era ultrapassadíssmia, os relatórios técnicos não foram respeitados, a fiscalização era ineficaz, a corrupção minava toda a estrutura do Estado, o secretismo impunha uma mentira oficial, a propaganda veiculada era de uma demagogia hoje incompreensível.


Basta substituir o tempo verbal pelo presente do indicativo. Fizeram-me a papinha toda.
Sim, vivemos numa ditadura. Alegremente deixámos que os Belmiros do burgo amordaçassem não só a classe trabalhadora como, pasme-se!, o próprio governo e a oposição por atacado. É por isso que muito dizem "volta Salazar, estás perdoado!". Dizem-no mal, e não sabem porque o dizem, mas não deixam de pôr o dedo na ferida. No regime anterior ainda se sabia quem mandava. Agora a maioria das pessoas já não sabe quem manda, mas ainda pensa que sabe. Aperta-lhe a coleira mas nunca viram o dono.
Neste ambiente nacional e internacional (porque o sintoma é cancerígeno e maligno e, como um polvo venenoso, atrofia o mundo inteiro), germinam os nacionalismos, fundamentalismos e extremismos de toda a ordem. Quando falta a honra a uma nação, quando os homens honestos e de bem têm vergonha de sua própria rectidão por viveram numa sodoma e gomorra de indecência, injustiça e aberrante podridão, a seara está madura para o surgimento dos fungos mais malcheirosos que vão devorar, no fim do dia, toda a colheita de sangue.

Eu não fui feita para isto. Muitas vezes tenho pensado, que raio, mas vou escrever sobre o quê? Gostaria ser, nestes tempos de desespero, como um farol de luz que rompe a escuridão. Mas parece-me que não tenho jeitinho nenhum para a coisa. A minha missão e vocação sempre foi a de mostrar as trevas na luz mas agora que já não há luz resta pouca utilidade para o contraste da minha sombra. Tudo é negro. Tudo é negro. Tudo é negro.
Escreverei então sobre o quê? Sobre o que me apetecer, pois então. Serei mais um entretenimento, mais um programa, mais um canal.

Entretanto, vou dizer mais uma coisa que aprendi sobre o país nestes últimos meses. Pode parecer incrível, posso ser muito estúpida mesmo, mas confesso que só percebi agora.
É proibido dizer "não sei". É preciso saber sempre tudo sobre tudo e quando não se sabe inventa-se. Não importa a atrocidade que se diz desde que se diga. E se parecer bem e soar bem, melhor. É isto que explica o fenómeno Sócrates e aquele telemarketer das Finanças cujo nome não me dei ao trabalho de decorar porque actualmente não interessa muito saber seja o que for. E o nome pode-se sempre descobrir por aí na internet; afinal é um nome efémero porque como todos os vendedores da banha da cobra este também não vai ser lembrado durante muito tempo. Verbo de encher, o ministro das Finanças, tal como os outros todos, vendedores de ilusões que ainda há tansos que compram. Nunca os ouvirão dizer "não sei". Eles sabem sempre tudo. O povinho segue-lhes o exemplo.
Ora isto faz-me imensa confusão porque é a antítese do verdadeiro saber. Não é preciso ter estudado filosofia (mas ajuda), basta um bocadinho de tutano cerebral para perceber o que disse Sócrates (o outro, o verdadeiro): "Só sei que nada sei". Porque quanto mais se sabe mais se tem consciência do pouco que se sabe. Saber tudo significa não saber nada de nada.
Actualmente, o país vive e germina ignorância por todos os poros. Há quem perca a paciência para pregar aos surdos. Algumas lições aprendem-se na pele.
A mim vai sempre dar um gozo do caraças dizer que o rei vai nú. Neste caso, vai estúpido. Tão estúpido como o Freitas do Amaral a pretender solucionar os conflitos do choque civilizacional com um campeonato de futebol. Mas pretenderá mesmo? Eu digo que finge. (Por alguma razão, em inglês, "fingir" diz-se "pretender".)
E fingem os outros. E como ilusionistas, passam os truques mais bacocos perante o público de província que nunca viu melhor. Convém aos ilusionistas que o povo veja cada vez menos. Se vivíamos num salazarismo obscurantista, agora vivemos num obscurantismo mediático. Ou seja: atordoem-nos com luzes de todos os lados até eles ficarem cegos!
E a imagem, o materialismo desmedido, ou como dizia Raul solnado no outro dia nos "Prós e Contras", a nova ideologia, o dinheirismo, lá foi mantendo o povo entretetido até ao dia em que faltou a *massa* para remendar o ídolo podre. (No princípio desde blog eu clamava contra a crescente tendência de privilegiar a quantidade em detrimento da qualidade por isso agora sou insuspeita quando digo que foi de mal a pior. Agora já não há qualidade nem quantidade. Ao contrário da lei da natureza, nada se produz, tudo se destrói.) E o ídolo ruiu mas mantêm-se a fachada de papelão, pintada a tinta dourada, para ninguém perceber. Ora, há sempre aqueles blasfemos que insistem em furar a cartolina e mostrar que do outro lado da imagem só existe o oco.
A sociedade está oca. É por isso que as palavras acertadas se perdem na imensidão silenciosa e não têm resposta excepto o seu próprio eco. É por isso que muitos se cansam de as dizer.

E haveria mais para dizer mas agora vou apreciar a paz que nos resta nos nossos miseráveis lares para me embriagar de inteligência e de álcool. O álcool vende-se. A inteligência, contudo, dá mais trabalho a procurar, e é rara.

Sim, foi uma estrada longa e dura pelo inferno. Para minha surpresa, sou daquelas aberrações a que se chama "sobrevivente".



As if by magic
I have been spared
This stagnant atmosphere has dissolved into
A nebulous vacuum

I am bathed in aromatic perfume
Dream like figures emanate love
And swoon at my glance of seduction

By what magic has fate allowed such bliss?
Insanity you are so sweet.



Raw War (excerto)
Christian Death, "The Scriptures" 1987



Que estranho. Olho para o espelho e já não sei que sou. Um destes dias, pergunto-vos.

sexta-feira, 21 de abril de 2006

2:11
Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo esse mal que lhe havia sucedido, vieram, cada um do seu lugar: Elifaz o temanita, Bildade o suíta e Zofar o naamatita; pois tinham combinado para virem condoer- se dele e consolá-lo.
2:12
E, levantando de longe os olhos e não o reconhecendo, choraram em alta voz; e, rasgando cada um o seu manto, lançaram pó para o ar sobre as suas cabeças.
2:13
E ficaram sentados com ele na terra sete dias e sete noites; e nenhum deles lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande.


Jó, 2:11-13