segunda-feira, 29 de novembro de 2004

A pergunta era...

Porque é que não conseguimos conceber algo que não tenha princípio?

domingo, 28 de novembro de 2004

The Village (2004) e a América

(Para fotografias, vão ao blog do Goldmundo, que ele tem por lá uma carrada delas)

É difícil não falar deste filme sem descrever a história, por isso se não querem saber o melhor é não lerem o resto.
MAS TÊM A CERTEZA QUE NÃO QUEREM SABER?
E se alguém vos privasse do direito de escolher se querem saber ou não? É sobre isso que este filme trata.
Um grupo de iluminados decide criar uma comunidade à parte - nos nossos dias - em que se diaboliza a sociedade como a conhecemos hoje. A fuga perfeita da escravidão do dinheiro e da ameaça do crime. Uma espécie de comunidade Amish como podemos ver em "A Testemunha". Só que, para forçar os jovens nascidos nessa comunidade a permanecerem lá, os anciãos da aldeia vão muito mais longe do que ameaçar os paroquianos com as penas do inferno. Inventam monstros, vestem-se de monstros, tornam-se monstros. Estes "monstros" vivem na floresta e esfolam pequenos animais. As "provas" aparecem. As pessoas têm medo. As pessoas acreditam que os monstros existem, até porque já os viram.
Tudo isto mascarado das "boas intenções" de proteger os inocentes nascidos na aldeia da terrível tentação de procurar o mundo exterior, nem que seja por mera curiosidade. O medo paralisa-os e não conseguem passar pela floresta.
No entanto, os jovens sabem que existe um mundo lá fora onde a tecnologia está mais desenvolvida. Tal como numa típica sociedade Amish, rejeitam a inovação pelo bem estar geral da sua pequena comunidade.
Até ao dia em que alguém morre por falta de medicamentos. E até ao dia em que alguém pode de facto salvar uma vida se apenas vencer o medo de atravessar a floresta recheada de monstros - que não existem. (Note-se a semelhança com o filme "A Praia", só que com uma decisão diferente, a de salvar uma vida mesmo pondo em risco a comunidade.)
Os verdadeiros "monstros", os anciãos da aldeia, permitem que uma rapariga cega conheça a verdade sobre a farsa e que seja ela a atravessar a floresta. Aqui ela tem culpa pois, a certa altura, ela sabe a verdade e cala-se. Podia ter partilhado a verdade com os jovens que se atreveram a acompanhá-la no princípio da jornada mas, duplamente cega (e tão monstruosa como os seus "criadores"), cala-se e permite que os outros continuem na ignorância. Este pequeno momento de verdade poderia ter evitado uma tragédia, e outra, e outra, e todas as tragédias que se seguem a uma mentira. Não há ninguém neste filme mais culpado do que ela.
O que me preocupa é que, sendo criada numa mentira, ela idolatre de tal modo os seus modelos que não é capaz de os desmascarar. Prefere alimentar a farsa. Não sente a desilusão. Não consegue encarar a desilusão? Quão cego se pode ser, é a pergunta?
Na sequência de filmes como este, e "A Testemunha" e "A Praia" e toda a série "Ficheiros Secretos", começo a chegar à conclusão que algo de grave se passa na América, algo de grave de que estes produtos cinematográficos são um espelho.
(Bem, confesso, falar com as pessoas também me abriu os olhos. Porque alguns de nós não estão cegos.)
O tema é recorrente. The truth is out there. Nós nem temos tradução que lhe chegue, o que significa qualquer coisa. "A verdade está lá fora", ou "a verdade anda por aí" não chegam para descrever o sentimento de terror que é o facto de a verdade estar "lá fora" mas ninguém saber qual é a verdade. O terror de viver numa sociedade baseada em monstros imaginários que a sustentam. O terror de algumas pessoas conhecerem a verdade e não a quererem revelar para o "bem comum". A teoria da conspiração sem um Agent Mulder.
O verdadeiro terror. Ou apenas o estado das coisas antes da escuridão total que é o correr da cortina e o instaurar da tirania do "bem comum". Sabemos bem onde vai dar. O muro só caiu há 15 anos.

Coitadinha da mãe do senhor ministro!!!


A sugestão...

Por Helena Sacadura Cabral
Economista

Lá fora, o Presidente Bush ganhou as eleições, Arafat morreu e iniciou-se uma sucessão política que está longe de ser pacífica. O dólar desceu e o euro está cada vez mais forte.

Por cá, o ministro das Finanças, que, como eu, é hipertenso, dá uma contribuição para a subida da minha pressão arterial.

Primeiro, foi o meu PPR, cujos benefícios foram à vida. Depois, foi a prometida baixa de impostos que, afinal, só parcialmente se fará sentir em 2005. O resto fica para 2006, quando nem eu nem ele sabemos se continuamos em funções. No meu caso funções vitais, dado que, com a idade que tenho, ninguém me garante que esteja viva nessa data. Funções governativas no caso do ministro, que, entretanto, podem deixar de existir…

Agora são os direitos de autor, dos quais vivo, que se irão esfumar como o vento, a partir de certo limite. Ora sendo Portugal um país conhecido pela sua enorme apetência pelas artes e literaturas, é de crer que a medida traga os melhores resultados!

A cumular tão «agradáveis surpresas» junta-se, no momento, a minha ignorância sobre o que vai acontecer à chamada «casa de residência de família». De facto, o domicílio filial cujo aluguer é há 47 anos nosso corre o risco de deixar de o ser.

E onde, à falta de obras do senhorio, fui realizando, a expensas próprias, algumas melhorias. Que de nada me servirão, dado não ter solicitado ao amigo que as foi executando as indispensáveis facturas, tão do gosto do dr. Bagão Félix.

Mas nem tudo é mau neste reino de fantasia, já que o patrão das nossas finanças sabe velar pela juventude dos futuros reformados. Aos quais, agora, sugere um lifting cerebral através do sistema «trabalho e reforma a meio tempo». O qual permitirá aos excelsos avós deste país participar, «graciosamente» (de gratuito, claro), na educação dos seus netos, cuidando deles no «meio tempo» em que não trabalham!

Surpreendida com tanta bondade, cogito no que pensará o dr. Félix, quando chegar à minha idade…

É que eu comecei a trabalhar aos 13 anos, tive filhos sem direito a férias de parto e sou do tempo em que os sábados não eram dias de descanso.

Ou seja, o meu activo laboral tem, seguramente, mais anos do que a idade do senhor ministro.

Em face de tudo isto comecei a fazer reduções. A empregada doméstica passou de meio tempo a um quarto dele. Isto é, deixou de vir todas as manhãs e passou a vir, apenas, duas.

O coupé dos meus encantos, comprado há três anos, foi despachado rapidamente e substituído por um modelo utilitário. Tão utilitário que, com o actual preço da gasolina, nem sempre sei se o devo usar.

No ano passado publiquei um livro de cozinha. Prevendo a dimensão da crise, inclui-lhe um sugestivo capítulo de aproveitamentos.

Este ano, acabo de lançar um livro de dietas. Numa tentativa de adaptar o corpo às dificuldades e manter a tensão arterial nos seus limites.

Por tudo isto, sugiro ao senhor ministro que siga o meu exemplo. Porque, se assim não ficar hipotenso, pelo menos irá contribuir para minorar os prejuízos que, pela sua mão, eu já sofri!


Gostei principalmente da parte do coupé. Coitadinha. O que será desta terceira idade? Qualquer dia até têm que andar de transporte público.
Ou, salvo seja, dispensar definitivamente a empregada doméstica.

Eu espero que a senhora esteja a ser tão sarcástica quanto eu, ou temos o caldo entornado, mas uma coisa é certa, quando os ricos começam a apertar o cinto o que será dos pobres?
Eu sugiro que os comamos a eles. (Já são muitos filmes de terror...)

sábado, 27 de novembro de 2004

Eternidade

Como começou o universo? O que aconteceu antes do Big Bang? E antes? E antes ainda?
E se Deus criou o universo, quem criou Deus? Como começou Deus?

Já repararam, apesar de sermos mortais e termos vidas limitadas, nós conseguimos compreender a noção de eternidade no sentido de não ter fim. Conseguimos compreender a noção de algo viver para sempre, ser imortal, não morrer.
Mas não conseguimos compreender a noção de não algo não ter princípio.
Porquê? Porque é que não conseguimos conceber que algo não tenha tido nunca um princípio?

Respondam, respondam, respondam!

quarta-feira, 24 de novembro de 2004

Estou a ficar estúpida

Não estou a brincar.
Os volumes e volumes de cultura que fui adquirindo ao longo do meu percurso educativo e nos variados media estão-se a varrer como itens apagados de um disco rígido.
No call centre (porque é assim que se escreve à inglesa, e não call center, à americana), no outro dia, um gajo disse-me que uma palavra da morada levava um "chapéuzinho" e eu fui incapaz de me lembrar, durante a meia hora seguinte, que o "chapéuzinho" se chama acento circunflexo. E sei que circunflexo leva também um acento, mas não me lembro de qual nem de onde.
Estou a emburrecer ao contactar com família, chefes, patrões, clientes, que não sabem escrever, falar ou interpretar o que lêem.
Costuma dizer-se "junta-te aos bons e serás como eles; junta-te aos maus e serás pior que eles".
A programação televisiva - Castelos Brancos de ignorância (já repararam que ele não sabe falar inglês e no entanto viveu na América, a besta?!? Como é que é possível que não tenha aprendido a conjugar os verbos? Onde é que arranjou o dinheiro, a traficar diamantes?), telenovelas brasileiras e portuguesas de enredo duvidoso, filmes de porrada, também não ajudam à manutenção do pouco que se aprende na escola.
Infelizmente, nem os amigos escapam. A comunidade gótica, mesmo sendo em média mais culta do que o resto das idênticas camadas juvenis, não escapa à onda de ignorância que alastra (e é glorificada) pelo país. Temo ser muitas vezes discriminada por não dar erros de português - porque ninguém quer empregar um intelecto superior ao do chefe, obviamente.
Estamos reduzidos ao triunfo da mediocridade.
Ainda hoje, nesta vergonhosa entrevista que Santana Lopes deu a Judite de Sousa, o próprio primeiro ministro não conseguiu articular duas ideias coerentes uma atrás da outra.
É a isto que estamos reduzidos? Sim, vou votar "sim" no referendo da Constituição Europeia porque pior não podemos ficar.
O que é mais interessante é que a minha estupidificação pode, a longo prazo, vir a ser recompensada com uma promoção que há uns anos atrás era impensável. Tenho ainda que me fazer/ficar/fingir mais estúpida. Para meu próprio benefício.

Não sei se sabem mas na América, por exemplo, as pessoas com melhores notas no liceu entram nas melhores universidades (e têm bolsas de estudo que lhes permitem sair de casa dos pais para estudar) e as pessoas são de facto recrutadas pelo mérito que exibiram nessas mesmas melhores universidades. Ou seja, a educação vale a pena. Em Portugal, já não vale a pena estudar.
Não me admira, portanto, que os clientes que telefonam para o call centre leiam um "S" ou um "Q" e digam "C", porque não reconhecem as letras. Estamos reduzidos a isto. Mas não é porque sejam estúpidos. É porque são, até, mais inteligentes do que eu. Perceberam, a tempo, que estudar era uma perda de tempo.

Só mais uma nota:
Os cursos que nós tiramos em Portugal não valem a ponta de um corno na Europa porque, pura e simplesmente, não valem a ponta de um corno. E na Europa há padrões de qualidade muito sérios. Por outro lado, se o curso for tirado, por exemplo, num colégio inglês ou francês, já tem garantia de qualidade no estrangeiro.
Era para nos fazer pensar.

Mas...
Mais uma nota:
Convém a políticos como os nossos que as massas ignorantes continuem ignorantes pois de outra forma teriam de se esforçar mais para ganhar os votos que, de outra maneira, lhes escapariam.
Há sempre aquela camada de reformados que votam no governo porque vão ter (ou tiveram) um aumento de 200 escudos na pensãozita. Que bom!

Eh bien.

Les cigarettes

Comentários que eu quero comentar em público:


Não ames tanto o mundo. Não estou a brincar, tambem.
GOldmundo | 21.11.04



No sentido em que, se eu não amasse tanto o mundo não me sentia tão mal por fazer parte dele?

Isso só pode advir de quem tem saúde...


Infelizmente, ou felizmente, tal já não é verdade. Estou doente. Tive pneumonia no ano passado e acho que estou a caminhar para outra, embora este ano me tenha "portado" muito melhor.
Mas mantenho a ideia original. Quanto mais cedo, melhor. Et alors?

Tentando responder à tua pergunta favorita... É considerada letal uma dose de 60mg de nicotina... basta olhar para o maço que tens aí ao lado e... fazer as contas para ver quantos cigarros tens que fumar ao mesmo tempo e na sua totalidade, para morreres (cerca de 60 no meu caso)


Obrigada pela resposta. É então uma questão de ter boca para tantos cigarros. (Ai as piadas porcas que podiam sair daqui mas... não saem.)

hmmm... porque não estupidificarmos e tornarmo-nos banais? Rose*
Black Rose


Tenho a sensação de que isso me está a acontecer. A estupidificação, não a banalidade. Mas mais sobre isso noutro post.

Cá estamos chegados ao momento preferido de quem pensa que diz muito ao mundo mas que afinal não passa de uma vulgar pessoa que como todos os outros não tem coragem para o adeus final.


Era mais fácil e eficaz com uma arma de fogo.
Não conheço, neste momento, gente da Buraca que me arranje uma fusca barata. Mas não está posto de lado.
Não, espera, até está, por causa do karma e essa treta da reincarnação em que eu acredito. O suicídio é proibido porque é uma fuga ao karma que nos foi designado.
De modo que ambas as minhas religiões não permitem.
O que não significa que em circunstâncias desesperadas não se recorram a medidas desesperadas.
Obrigada por me lembrares que afinal não preciso de acabar debaixo da ponte.
Já me sinto muito melhor. A sério.

Deus

Perguntaram ali em baixo qual era a minha opinião.
Eu acredito em Deus porque as minhas preces já foram respondidas. De outra forma seria mais uma agnóstica.

A minha experiência nada tem de segundas intenções. Fiquei contente por ter despertado o debate. Só isso. Quero despertar o debate sobre assuntos não muito discutidos.