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sábado, 26 de junho de 2010

"A Filosofia Segundo Perdidos"



"A Filosofia Segundo Perdidos" é uma compilação organizada por Sharon M. Kaye que engloba uma série de pequenos ensaios de diversos autores que abordam a série "Perdidos" sob o ponto de vista da filosofia, da mais clássica à mais moderna.
Ler um livro destes fez-me sentir humilde, e perceber que não sou tão inteligente quanto imaginava e que sou muito mais ignorante do que pensava. É esta capacidade que têm sobretudo os autores de filosofia americanos de tocar o homem comum, sem pretensiosismo, e de o levar numa aventura intelectual que põe toda a "máquina" a trabalhar até... bem, na verdade, até onde esta conseguir dar. Mas esta humildade, com que o leitor médio se tem de confrontar, este vislumbre de que afinal há muito mais para descobrir do que pensámos a princípio, é no fundo o que nos faz sentir humildes e, ao mesmo tempo, empoleirados nas costas de gigantes, almejar um dia a sermos maiores e a ver também mais longe.
Só para o mais distraído é que "Perdidos" é apenas uma série de televisão igual às outras, para consumir e deitar fora. Perder "Perdidos" é simplesmente perder o melhor que se faz -- corrijo, o melhor que já se fez -- em séries de televisão até ao dia de hoje. Perder "Perdidos" é perder uma chave civilizacional.
Neste livro, inspirado pela série, variados autores dissertam sobre os temas filosóficos suscitados pelas primeiras três temporadas (tenho para mim que a partir da quarta era chamar os cientistas a comentar, em vez dos filósofos), abordando temas como o determinismo, o livre-arbítrio, a ética, a ciência, a fé, e os outros (em todos os sentidos, até no de Sartre, cujo existencialismo é também peça fundamental de "Perdidos"). Mas o meu artigo preferido é mesmo o último, e intitula-se "Perdidos e o problema da vida depois do nascimento", que é como quem diz "a vida antes da morte". E qual é o problema da vida antes da morte? O seu sentido, obviamente, ou a falta dele.
Jeremy Barris é de facto o autor que melhor resume uma certa atitude desatenta em relação a "Perdidos":

Desfrutar de Perdidos significa ter uma experiência profunda, existencial, que nos liga a temas básicos da nossa existência humana. "Perdidos" produz este tipo de experiência de uma forma especialmente clara e directa e, desse modo, pode ajudar-nos a compreender a razão pela qual outros programas exercem tanta atracção sobre nós, incluindo os de detectives e os de mistério, continuando a prender o nosso interesse.
Os críticos culturais comparam, por vezes desfavoravelmente, a cultura ocidental contemporânea com a antiga cultura grega, cuja arte de contar histórias não constituía sobretudo uma forma de escapar à vida, sendo em vez disso uma forma habitual de experimentar profundas questões a seu respeito. Eu sugiro, contudo, que a lição de Perdidos é que a forma habitual de diversão da nossa cultura constitui também por vezes esse tipo de arte profunda.

Pois:

Ao contrário da ciência, a filosofia não descobre coisas desconhecidas, nem fornece novas informações sobre coisas familiares. Em vez disso, o que é estranho à primeira vista, lida com coisas que todos, na verdade, já sabemos muito bem. Ajuda-nos a descobrir a natureza destas coisas familiares mais profundamente do que as conhecíamos antes. Este interesse num conhecimento mais aprofundado de coisas familiares expressa-se num sentimento de espanto acerca das coisas no mundo à nossa volta, uma sensação que todos por vezes experimentamos. Platão (428-347 a.C.) escreveu que "o espanto ( ... ) é característico do filósofo (...), é aí, e em nenhum outro sítio, que a filosofia começa".

"Perdidos" dá muita atenção à razão e à forma como cada pessoa chegou à ilha. Sob muitos aspectos, o modo como o programa apresenta e explora esta questão ecoa a forma como nós, nos nossos momentos de maior reflexão, somos perturbados pela questão: "Porque estamos aqui?".
(...)Como resultado, o programa é acerca do mistério. As histórias do passado de cada uma das personagens faz sobressair, de modo semelhante, as estranhas voltas que a suas vidas dão e as espantosas coincidências entre as suas vidas (...)
Este mistério da chegada dos náufragos à ilha está no âmago das nossas vidas, levando-nos à pergunta acerca da vida: "Porque estamos aqui?". Em termos heideggerianos, nós, tal como as personagens de "Perdidos", achamo-nos atirados para a situação da nossa vida, como partes de um meio ambiente e de uma história basicamente desconcertantes, nenhum dos quais feitos por nós, e ambos, sob muitos aspectos, indiferentes às nossas preocupações e à nossa própria existência.
Outro sentido da pergunta "Porque estamos aqui?" é se existe um propósito para estarmos aqui e, se tal for o caso, que propósito será esse. "Perdidos" presta uma especial atenção também a este sentido da questão. Estarão os náufragos ali para realizar uma tarefa importante, para servir um objectivo importante, embora desconhecido, como Locke acredita? Ou estarão talvez ali para serem moral ou espiritualmente redimidos?

A pergunta que a série e o autor nos põem é esta: E nós, porque estamos aqui? Para cumprir um destino pré-determinado por uma entidade exterior (Deus, a natureza, os nossos genes), ou teremos livre-arbítrio e a liberdade de escolher o nosso caminho?

É curioso também que antes de ler este livro nunca tinha reparado neste pormenor escandalosamente evidente:

Também é interessante que várias pessoas deste pequeno grupo tenham nomes de grandes filósofos do séc. XVIII: John Locke, (Desmond) Hume e (Danielle) Rousseau.
Há mais exemplos pela série fora, mas o que eu gostaria de destacar é este comentário de Jeremy Barris, imperdível:
E, mais importante, a personagem Henry Gale é interpretada pelo actor Michael Emerson. Coincidência? Ou será que o campo electromagnético da ilha se libertou do controlo dos argumentistas e começou agora a absorver o nosso próprio mundo para a sua realidade?
Penso que ele se refira a este Emerson, Ralph Waldo Emerson, de quem se diz:

Emerson's religious views were often considered radical at the time. He believed that all things are connected to God and, therefore, all things are divine. Critics believed that Emerson was removing the central God figure; as Henry Ware, Jr. said, Emerson was in danger of taking away "the Father of the Universe" and leaving "but a company of children in an orphan asylum". Emerson was partly influenced by German philosophy and Biblical criticism. His views, the basis of Transcendentalism, suggested that God does not have to reveal the truth but that the truth could be intuitively experienced directly from nature.
Pode muito bem ser que o campo electromagnético da ilha se tenha escapado pelo écran da televisão... Depois de "Perdidos", isso é certo, não direi que tudo mudará, mas sem dúvida que muitas pessoas se irão questionar duas vezes se devem ou não carregar no botão.

Acedia
Outro autor que me fez pensar foi Daniel B. Gallagher, dissertando sobre São Tomás de Aquino:

Rose mantém-se afastada daquilo a que São Tomás chama, em Latim, acedia, o maior dos pecados contra a fé. Embora seja muitas vezes traduzida por "preguiça", acedia é um termo mais técnico. Designa um tipo de torpor que impede a pessoa de desfrutar das coisas que são genuinamente boas. É uma paralisia espiritual que bloqueia a capacidade de olhar para além do mal. É "olhar para um bem valioso como sendo impossível de alcançar, quer por si, quer com a ajuda dos outros" e pode "por vezes dominar os afectos de uma pessoa, ao ponto de ela pensar que não mais poderá acolher aspirações ao bem".

Nunca pensei sofrer desta coisa que tem nome de doença e que se chama acedia, o maior dos pecados contra a fé. Mas, obviamente, eu não concordo nada com Tomás de Aquino. Não deixa, no entanto, de ser divertido ler estas linhas. (Ò Freud, a falta que tu fazias, de facto! Curiosamente, Freud é, sente-se, uma persona non grata para alguns destes autores -- a maior parte ignora-o -- talvez porque Freud explica o irracional e os filósofos não gostam nada do irracional, convencidos como estão de que o ser humano é todo ele "santo intelecto". Não fosse isso, eu até gostaria mais de filosofia).

Não quero deixar este post sem participar na dança. Se há perguntas, é para que se respondam. Mas talvez não da forma que os filósofos mais gostariam.

Alguma vez estiveram perdidos?
É a pergunta como que Sharon M. Kaye abre o livro, descrevendo de seguida a primeira vez que se perdeu dos pais na infância e as emoções que tal lhe suscitou.

Fiquei a pensar nisto e, estranhamente, cheguei a esta conclusão: eu nunca me perdi. Sempre fui uma criança cuidadosa, ultra cuidadosa, daquelas que sabem a morada de cor, o número de telefone, o telefone da polícia, onde ficam os bombeiros, e a quem só faltava marcar o caminho com pedrinhas, como na história infantil, para saber voltar a casa. Mas atenção, pedrinhas, não miolo de pão, pois, tal como como na história infantil ("Hansel e Gretel") os passarinhos comeram-no.
Não houve momento nenhum da minha infância em que me tivesse perdido dos pais, guardiões, amigos e "tratadores" em geral. Sabia sempre onde eles estavam, sabia sempre como voltar. (Às vezes eles é que julgavam que eu me tinha perdido, mas na verdade andava era fugida.)
Este cuidado exagerado foi-me abandonando com a idade. Já na adolescência, perdi-me da Praça da Figueira para o Rossio. Ou seja, não consegui encontrar o Rossio. Bem, para dizer a verdade, embora tenha metido pela rua errada, não foi por isso que não encontrei o Rossio. Foi preguiça de voltar atrás. E, para ser completamente franca, mais uma vez não estava perdida. Acontece que optei pela rua que me pareceu mais familiar. Em vez de perdida estava, pelo contrário, a caminho de casa.
Pareceu-me durante muito tempo que "perder-me" era uma terrível impossibilidade. Tive de fazer muito por isso. Finalmente, lá consegui. Com uma ajudinha de substâncias químicas, e nem sequer ilegais, mas lá consegui viver uma furiosa loucura. Por uns tempos, consegui esquecer-me do caminho. Hoje esforço-me por não me tornar a lembrar. Tenho feito um bom trabalho em continuar "perdida".
(Ou será fugida? Sim, é novamente fugida.)

O que fariam se estivessem na ilha?
Esta foi a pergunta a que mais me custou responder. Tive de admitir a mim mesma que se me encontrasse naquela ilha, depois de um acidente de avião, na companhia daquelas personagens (americanos malucos, francesa maluca, iraquiano maluco, sul-coreana cabra, nigeriano traficante-de-droga-que-finge-ser-padre, e quejandos) choraria amarga e inconsolavelmente. Isto diz muito, aparentemente, de uma personalidade derrotista. Mas só aparentemente. Em segunda análise, teria muito boas razões para chorar. No meio daquela gente estaria, muito mais do que eles, completamente privada da minha cultura. E a perspectiva de nunca mais ouvir música gótica nova é motivo suficiente para qualquer gótico cortar os pulsos.
Mas depois pus-me a pensar a sério. O que faria eu se me encontrasse naquela ilha, quando me passasse a choradeira? Obviamente, tentaria fugir de lá a sete pés. Nem que fosse preciso recorrer aos Outros e trair os restantes. Afinal, nenhum deles são "os meus". Faria como Desmond, que fugiu assim que pôde.
Mas há aqui uma armadilha, contudo. No momento em que me cheirasse a Jacob, ou à possível existência de Jacob, já não tenho tanta certeza se não faria antes tudo para o encontrar.
Isto, no entanto, digo eu agora que vi mais algumas temporadas e sei onde está a manivela "de saída". Não custa muito procurar Deus quando se lhe conhece escapatória... caso Deus não seja aquilo que se estava à espera.
E não, decididamente, não carregaria no botão. No dia em que o deixou de fazer, John Locke tornou-se o meu herói. Durou pouco; depressa o deixou de ser. Quanto mais os vejo mais me convenço que são todos doidos, alucinados e, sobretudo, perigosos. Pensando melhor... na dúvida, foge. Era mesmo de me pôr a milhas daquela maluquice toda.

Por incrível que possa parecer, ainda há uns quantos por aí que não viram "Lost". A esses, agora que a última temporada da série está prestes a passar na televisão portuguesa, recomendo encarecidamente: não vejam. Não só vão perceber muito pouco como não conseguirão desfrutar de toda a experiência "Perdidos". Voltem atrás, vejam o princípio, e depois, sim, podem vir agradecer-me pelo conselho.
É que há algumas coisas na vida que só interessam quando consumidas na sequência certa. Esta é uma delas.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Lost - This place is death



A princípio, provavelmente como toda a gente, pensei que esta era mais uma série sobre sobrevivência em ambiente selvagem e hostil, numa Babilónia explosiva de personagens de vários cantos do mundo que além das dissensões entre eles próprios se têm de haver também com um inimigo comum (os Outros). Julguei, na altura, que era uma metáfora para o planeta cada vez mais bélico e perigoso em que vivemos neste fim de século e princípio de milénio, um mundo que se tornou refém de um inimigo sem rosto que é o terrorismo. Escrevi sobre isso aqui.
Pela terceira temporada da série, comecei a perceber que na ilha se passava mais do parecia a princípio. Os elementos sobrenaturais (monstros, visões, visitas fantasmagóricas), que de início se diriam introduzidos eles próprios como metáfora ou manobra de distracção, começaram a assumir um papel tão preponderante que deixaram de ser secundários. Convenci-me de que a única explicação lógica era esta só: os supostos sobreviventes acreditam que continuam vivos mas afinal morreram e encontram-se numa espécie de limbo, ou purgatório, entre a vida e a morte, exactamente por se recusarem a acreditar que estão mortos. (É de salientar que as crianças do grupo desaparecem, supostamente levada pelos Outros -- quem são estes Outros, afinal? -- pois as crianças não sofrem o purgatório.) Deste modo, os intervenientes continuam a viver como se nada fosse, perplexos perante os fenómenos sobrenaturais com que são confrontados mas sem se esforçarem muito por encontrar explicação para estes (talvez temam demasiado descobrir a verdade). Encontros com gente já falecida, curas milagrosas, recordações do passado, tudo isto se torna compreensível se a percepção do corpo, e da vida deste, é apenas imaginária. Em suma, são as almas que continuam a viver, e a acreditar que ainda têm um corpo físico. Porque é que isto acontece com algumas personagens e outras não? Acontece especialmente com aquelas que têm assuntos pendentes que as atormentam. Nesse caso, pergunta-se, porque muitas personagens morrem ou são mortas durante a série? E eu pergunto: morrem ou acreditam que morrem? Não estavam já mortos? Veja-se a morte de Mr. Eco, em que este se deixa levar pelo monstro de fumo como se acreditasse que estava a ser arrastado para o inferno, até porque devido às suas convicções religiosas se julgava condenado a esse castigo no Além. Tenho a teoria, para a morte de certas personagens, que estas não morrem, simplesmente "avançam" para o nível seguinte quando para tal estão preparadas. Os Outros são os guardiões deste Limbo, anjos ou demónios, ou simplesmente o equivalente ao que chamamos seres celestiais, ou guias espirituais, o que explica o "rapto" das crianças -- os inocentes -- para o nível seguinte. Da mesma forma, na ilha não há nem pode haver nascimentos, e muito menos concepções. É na terra que se nasce, não no "Céu". No "Céu" não se nasce, nem se vive, simplesmente se espera.
Isto que estou a dizer não é só opinião minha, e muito menos teoria própria. Muitos outros espectadores, em todo o mundo, interpretaram assim. A tal não é alheio o facto de aparecer na série a palavra "dharma", que nos remete imediatamente para a espiritualidade oriental. Segundo esta, as almas morrem e reencarnam, mas antes deste eterno retorno passam algum tempo a purificar-se, no que a religião ocidental chama purgatório ou limbo, até estarem preparadas para regressar à existência terrestre. Na existência terrestre, enquanto encarnadas, realizam o Dharma, isto é, o caminho para a verdade superior, o destino. Mas sofrem também as consequências do karma, a lei de causa e efeito, a recompensa e o castigo pelo que fizeram em outras encarnações. O karma tornou-se muito conhecido, o Dharma nem por isso. A experiência Dharma (ou "Iniciativa Dharma") podia ser o nome de código que Deus deu à Criação. Dharma, o destino; Karma, a Justiça.
São as almas mais atormentadas, as que têm mais assuntos pendentes, as que maior urgência sentem em voltar a reencarnar, para saldar o seu karma e cumprir o seu dharma. Na série, personagens como Kate, Jack, Sawyer, Sahid. Outras, menos "carregadas" ou mais evoluídas, sentem-se impelidas a não regressar, a passar para o lado dos Outros, como é o caso de Jonh Locke.
Nesta dinâmica, muitas vezes não se percebe se os Outros são anjos ou demónios. Tenho para mim que o manipulador Ben Linus é o Diabo, ou um seu agente, ou algo que o valha. Repare-se que ele não obriga ninguém a fazer nada. Ele tenta, ele convence, mas as personagens agem segundo o seu livre-arbítrio.
Muito bem, esta é a teoria. Os produtores da série negam-na veementemente. Não estão nada mortos, não estão nada no Limbo, são personagens de carne e osso. Eu acho que mentem com todos os dentes, para não afastarem da série os espectadores de inclinação mais científica, mas mentem de facto, e vou explicar porque o afirmo.
Nas temporadas seguintes, algumas personagens conseguem sair da ilha e regressar "ao mundo dos vivos". É a tão aguardada "reencarnação". Depressa descobrem, porém, que todos os problemas voltaram com eles, se não os mesmos outros piores que os anteriores. Jack e Kate tentam ficar juntos, mas Jack já não encontra sentido para a sua existência e torna-se dependente de comprimidos. Hurley prefere refugiar-se num hospício. Sahid continua a viver o inferno que deixara para trás ao chegar à ilha, e vê-se novamente transformado num assassino: "trabalho para um genocida", confessa. Sun vive em desgosto e amargura, completamente dominada por desejos de vingança, e ainda e sempre separada do marido que tinha já perdido antes de chegar à ilha. John Locke, de novo remetido a uma cadeira de rodas (tudo muda e tudo se repete) tenta enforcar-se. Em suma, o karma continua a exigir o pagamento da dívida. As personagens continuam a não cumprir o seu dharma, o seu destino. Mais uma encarnação desperdiçada.
É por isso que regressam à ilha, sem necessidade de grandes justificações, nem a si próprios. O seu caminho foi interrompido, necessitam de enfrentar os factos e os erros e de uma profunda purificação. Jack chega a desejar a morte, como se depois da última experiência na ilha, ou no pós-morte, compreenda que o seu espírito está demasiado evoluído para a existência terrena que tem experimentado até aí. Jack está, na minha opinião, em vias de se tornar também um Outro.
Nas temporadas 5 e 6, os produtores tentam embrulhar todo este misticismo em ficção científica. Viagem no tempo, sobreposição de dimensões, física quântica. Não convencem. E duvido que queiram convencer. Tentarei não ser um spoiler para quem ainda não não viu o final da série 6, mas quem já pensava que o misterioso Jacob não é outro senão Deus, terá uma chocante surpresa ao ver as suas suspeitas confirmarem-se. Jacob é o Guardião, se não mesmo o Arquitecto da ilha. A surpresa é que tudo indica que não é o único. Outro Ser Antigo se lhe opõe e com ele rivaliza. Parecem Deus e o Diabo, a discutir o destino da humanidade. Deus e o diabo ou dois deuses, deuses gémeos, um que acredita na humanidade e na sua capacidade de evoluir para um nível superior, o outro que de tanto observar já condenou o ser humano à sua permanente natureza animal, e que o julga incapaz de ultrapassar a baixeza do conflito. Dir-se-ia que o primeiro é o criador e o segundo o crítico que escarnece do fracasso do primeiro. E esse fracasso somos nós, a humanidade, meros peões nesta aposta entre deuses caprichosos e voyeristas. (Leia-se o Livro de Jó.)
Sempre quero ver como é que os produtores tencionam descalçar esta bota com física quântica. Talvez seja uma questão de fé acreditar na ciência. Eu acredito que toda a série é uma simbologia do caminho das almas, e do eterno retorno, e se os produtores tentaram fazer algo diferente foi exactamente nisso que acabaram por cair. O que me agrada bastante mais do que a mal amanhada explicação científica.

Gostaria muito de trocar impressões com outros espectadores da série para partilha de teorias. Duas cabeças pensam sempre melhor do que uma só.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

"Lost", o estado do mundo




"Lost" ("Perdidos") é uma perfeita metáfora para o estado do mundo actual. "Lost" está para os anos 2000 tal como "Twin Peaks" para os 80 e "X-Files" para os 90. Em "Twin Peaks", durante anos de relativo optimismo, David Lynch teve tempo e oportunidade para se lançar na análise do inimigo interior, o perigo que pode morar na porta ao lado, a ameaça latente que vive escondida tanto numa pequena como grande comunidade de seres humanos que gostam de se julgar civilizados. Os anos 90, com a crescente inquietação e o inevitável pessimismo, ficou marcado por conspirações mais ou menos alienígenas, mais ou menos governamentais, mas a atenção estava ainda num inimigo invísivel, indeterminado, que tanto podia ser um extraterrestre ou o sinistro homem do cigarro. Mas tudo era uma nuvem de fumo. Se em "Twin Peaks" se perguntava "Quem matou Laura Palmer?", apontando o dedo ao serial killer (que afinal era um ser sobrenatural), já em "The X-Files" se sabia que "the truth is out there", mas a verdade nunca seria conhecida, embora se quisesse acreditar no lema da série, "I want to believe". Ambas as séries expressam o mesmo medo, o mesmo perigo, mas a ameaça é latente, não absolutamente real. Em "Lost", a ameaça é real, ou assim o parece. No princípio do milénio, pós-terrorismo, um grupo de pessoas sobrevive à queda de um avião numa ilha paradisíaca que lembra o Jardim do Éden antes da Queda, a Terra bíblica e prometida, mas nada de edénico existe nesta ilha. Com as pessoas chegam também as drogas, as armas, a guerra, mas também os polícias e os ladrões, os bons e os vilões, os homens e mulheres de fé. O mundo inteiro está condensado naquele microcosmos em que a sobrevivência do ser humano é realmente ameaçada, em que se pode perder a vida num segundo pela razão mais disparatada como um estranho urso polar à solta. Tudo é possível. Até a conspiração já ensaiada nos "Ficheiros Secretos", mas sem extraterrestres. O perigo é bem real e vem dos "Outros" habitantes da ilha, bem de carne e osso, bem humanos, cujas intenções não se conhece nem à maneira de os deter, tal qual o terrorismo. Não admira que num destes últimos episódios Jack tenha perguntado "quanto tempo demora a treinar um exército?".
É essa a pergunta dos dias de hoje, "quanto tempo demora a treinar um exército?", e já não "quem matou Laura Palmer?" ou "o que aconteceu em Roswell?". O mundo tem preocupações mais urgentes e perigosas com que se assustar, não há tempo a perder com serial killers e as profundezas da psique humana, com extraterrestes e longínqua vida noutros planetas. O mundo de "Lost" é paralelo mas é este mesmo, sem tirar nem pôr. Um mundo em que a preocupação é sobreviver mais um dia, à escassez e à guerra, mas um mundo de valores abalados, em que alguns se agarram à fé como última alternativa à destruição iminente e outros preferem fingir que a vida continua e não se passa nada. A humanidade a regressar aos seus estados mais primitivos, entre o tribalismo e a crença cega, entre o individualismo, o descalabro da família tradicional e a imperiosa necessidade de refazer os elos sociais perante a ameaça à espécie. A própria espécie humana vista como rato num labirinto, presa, por suprema ironia, na própria experiência que criou. A grande experiência de Deus no Jardim do Éden, afinal, terá sido tão inventada pela necessidade de acreditar em alguma coisa como é real o armagedão de que se suspeita se não se carregar na tecla de um computador do tempo da guerra fria. Deus, afinal, não existe. A experiência do Éden foi sempre fruto da imaginação do homem, que agora colhe o castigo de querer provar do fruto de todo o conhecimento, nascido na árvore do Bem e do Mal. É o mundo perdido, sem rumo, assustado, sem valores, sem fé, sem ter para onde fugir: tudo isso significa a palavra "lost".