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quarta-feira, 2 de agosto de 2006

De cócoras

Um homem, senhor Cadete, fecha-se por dentro destas noções, ausente na sua presença de mulher, acreditando que alguém ainda lhe continua pondo as mãos nos ombros, se eles choram de saudade e se isso lhes inspira a certeza necessária. Quando, de súbito, um estranho como você aponta o queixo na direcção do rapaz e pergunta se ele não medra, eu sinto que errei em tudo na vida, porque um dia quis morrer e desisti por causa deles.
Nunca mais fui capaz de me endireitar por dentro da vida. Continuo vivo, é um facto, mas de cócoras, de cócoras perante o mundo e, se me puser de pé, a minha vista já não vê o longe, nem sequer mesmo o outro lado da rua.
A este menino pode ter acontecido algo de semelhante, porque os rapazes da sua criação cresceram e estão de pé na vida, ao passo que ele tem a tristeza encostada à carne, e a tristeza já lhe entrou nos ossos. Pois será que ela mina os seres assim por dentro, chupa-os até devorar a seiva dos ossos e dos nervos; será que a tristeza envelheceu um corpo antes mesmo de ele crescer e se tornar jovem para então poder multiplicar-se?




João de Melo, in "O meu mundo não é deste reino"