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sexta-feira, 26 de abril de 2013

Chelsea Quinn Yarbro, “A Baroque Fable”

Um conto para crianças pequenas e crianças grandes

Como é que eu acabei a ler um conto de fadas? Por acidente. Procurava histórias de Chelsea Quinn Yarbro, de quem aqui já falei a propósito da saga de vampiros por que é mais famosa, quando me deparei com este título, “A Baroque Fable”. Imaginei que o título fosse irónico, até porque não deve melhor época para a sátira do que a época barroca, e conhecendo a autora como já conhecia até agora era por aí que andavam as minhas expectativas.
Ao começar a ler, para meu espanto, apercebi-me de que isto não era o conto satírico e socialmente crítico que eu esperava, mas antes um conto de fadas, para crianças! Ou melhor, como se diz na classificação de filmes familiares, “para todos”.
Admito que muitas vezes me divertiu, e que até ao fim tive medo que fosse uma armadilha, e que de repente acabasse com um final adulto, sangrento, horrível. E conforme me ia embrenhando na história (uma história simples e contada de forma simples) cada vez me apetecia menos que acabasse mal, porque afinal é um conto de fadas e os contos de fadas não podem acabar mal. Como todas as crianças sabem, e nem devem desconfiar de outra coisa.
Estou a fazer um post sobre este “Baroque Fable” com um intuito diferente do que geralmente que me leva a partilhar as minhas leituras por aqui. Desta vez falo para aqueles que tem miúdos e que precisam de histórias de jeito (saliento, de jeito!, para os entreter).
Não faço ideia se Chelsea Quinn Yarbro tinha a intenção de escrever para crianças ou se queria apenas produzir uma história divertida, com bruxas e feiticeiros, dragões, trolls, e cantigas, algo que se pode ver num filme ou desenho animado. Aliás, admiro-me que esta história ainda não tenha sido adaptada ao cinema porque é muito mais interessante do que as coisas insonsas que se dão actualmente às criancinhas. As criancinhas não gostam de coisas insonsas. Gostam de histórias que parecem histórias de adultos, daquelas que só os adultos sabem que o não são. Esta é uma dessas.
A bruxa má Alfreida, que mora num bosque escuro e assustador como devem ser os bosques onde moram as bruxas, transforma a sua bonita e boazinha criada Esmeralda num dragão. Porquê? Só para provar que tem talento.
Ao tomar conhecimento disso, no reino de Alabaster-on-Gelasta, o jovem príncipe Andre decide imediatamente ir caçar o dragão, o que nesta versão soft significa arranjar um animal de estimação. O rei, cujo passatempo é fazer malha, aprova a coragem do filho, enquanto a sua mãe, a rainha histriónica, faz uma cena. É bom para os putos saberem que nem sempre as mães histriónicas que gritam e choram e se fazem de vítimas devem ser levadas a sério.
A princesa, de nome Felicia, uma rapariguinha emo, que está sempre sempre aborrecida porque no reino nunca acontece nada, decide ir com o irmão para espantar o tédio, e é assim que o príncipe e a princesa, e o pasteleiro do reino (porque o mais importante quando se caça dragões é levar o pasteleiro que faça o pequeno almoço), viajam para a floresta sombria, sozinhos. O dragão não é difícil de caçar, porque não é um dragão mas uma rapariga encantada (e desejosa de ser caçada pelo príncipe). Mais difícil é para os heróis fugirem do reino tirânico de Addlepate, onde o príncipe é raptado pelo resgate, mas nada que a princesa aborrecida e a rapariga-dragão não consigam ultrapassar sozinhas e salvar o príncipe.
No fim, e conto o fim para os meus leitores não pensarem que afinal isto não é para crianças, o pasteleiro é na realidade um príncipe (e já pode casar com a princesa), o outro príncipe descobre que o dragão não é um dragão, e até a bruxa má (que afinal não é assim tão má) encontra o amor da sua juventude. E todos viveram felizes para sempre.
Recomendaria esta história a adultos? Só àqueles que ainda têm, lá no fundo, no fundo, um coração de criança, e sentido de humor, e miúdos pequenos insatisfeitos com “histórias para crianças”. Os miúdos vão adorar, e os pais vão sorrir com as insinuações que só eles vão perceber. Para toda a família.








terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Chelsea Quinn Yarbro: "Olivia"

*contém spoilers*

Quem gosta de literatura de vampiros já deve ter ouvido falar de Chelsea Quinn Yarbro, ou pelo menos da sua famosa personagem o Conde de Saint Germain. Foi nos fóruns da especialidade que a saga Saint Germain me foi aconselhada. Pesquisei por onde começar (nestas coisas das sagas tento ser cautelosa) e descobri que havia uma vampira: Olivia. Diz muito de mim que nesse momento tenha imediatamente decidido ler os livros de Olivia primeiro. Até agora li dois: "A Flame in Byzantium", como o nome indica passado em Bizâncio (Constantinopla, hoje Istambul) nos dias em que os bárbaros saqueavam o império romano, e "Crusader's Torch", quinhentos anos mais tarde em plena Idade Média. Isto torna Olivia uma vampira muito antiga. Nunca fiz as contas mas a rondar os 1000 anos, mais século menos século.
A minha expectativa era grande. Confesso que tinha em mente uma outra vampira, a de Anne Rice, de alcunha Pandora e de nome Lydia, a predadora. A amante de Marius, quando eram "novos". Sempre achei que o talento de Anne Rice se gastou demasiadamente nos vampiros do sexo masculino. Apetecia-me uma vampira. Uma Olivia, romana, trigueira, de pêlo na venta e fartos seios, que os sugasse e deitasse fora como quem troca de camisa. Fui avisada para o teor erótico de certos episódios, mas não fazia mal se Olivia os comesse de todas as maneiras. Uma vampira milenar, uma deusa, uma rainha!
Não ponho as culpas em Yarbro, mas não me saiu o que eu estava à espera. Em vez de um hino ao feminismo... saiu-me uma vampira ruiva (ruiva!), doce, boazinha, esfomeada de afecto. Capitães romanos, cruzados, nobres árabes, e mais o que calhar entretanto, não consigo levar a mulher a sério. Mas antes de lhe chamar "oferecida" calhava bem explicar o que já compreendi da mitologia destes vampiros. Não apreendi tudo, o que é natural numa saga quando não se lê do princípio. Os vampiros de Chelsea Quinn Yarbro não são invulneráveis. Ainda não percebi até que ponto os seus corpos imortais podem morrer de golpes fatais. Fico na dúvida porque Olivia tem horror às viagens no mar (da mitologia que os vampiros não podem deslocar-se sobre água), que a enfraquece fisicamente, e uma dos seus maiores terrores é naufragar, terminar no fundo do mar, consciente, incapaz de se mexer, comida pelos peixes. Mas não morta. O sol não os mata mas retira-lhes a força, pelo que podem viver à luz do dia, mas não comem nem bebem alimentos (o que lhes causa o transtorno de tentar arranjar desculpas para o explicar). Precisam, para se fortalecer, da terra natal literalmente sob os pés (como "Drácula").
Agora vamos à parte que interessa, o sangue. Estes vampiros, como Olivia, pelo que percebi, podem sobreviver de sangue de pessoas ou animais, mas não ficam saciados se não o beberem durante um encontro sexual, e agora sim, a parte melhor, mas não um qualquer encontro sexual! Para ficar saciada, Olivia tem de encontrar o amor, a paixão, a entrega, a total partilha de um amante.
Pobre Olivia, bem está condenada a passar fome eternamente, digo eu que sou cínica.
E a autora também não é romântica. Em dois livros, Olivia tem dois amantes, nenhum deles acredita que é vampira por mais que lhes diga, nenhum a compreende, nenhum a ama, nenhum consegue resistir à atracção puramente sexual, ambos a deixam, cada um à sua maneira. Mil anos depois, Olivia ainda escreve cartas apaixonadas ao seu primeiro amante imortal, o Conde Saint Germain, que não a vê há igual tempo e que partiu algures para parte incerta na Ásia.
Como levar a sério esta mulher?! Uma vampira, ainda por cima! A fazer figuras destas! Onde está o teu orgulho, Olivia? Um pouco mais de auto-estima, mulher! És boa demais para eles! Antes morrer de fome, Olivia! Antes morrer de fome!
Olivia tem um mordomo, vampiro de nome grego impronunciável, Niklos Aulirios, uns séculos mais novo, que lhe é leal como um cão. Parece que Saint Germain também tem um lacaio assim. Intriga-me se os prende a pura amizade ou qualquer espécie de servidão vampírica aos seus criadores (um "sire bond", como se diz noutras terras). Parece-me também que Olivia e Niklos, amantes quando este era mortal, não podem, ou não querem, unir-se carnalmente ou sequer de maneira romântica. Porquê é um mistério, se foram amantes em tempos... Talvez a repulsa faça parte das "leis" que regem os vampiros de Yarbro. Ou talvez, muito prosaicamente, se tenham fartado um do outro ou aquilo nunca tenha sido assim tão bom?! Permanece o mistério. Talvez os livros anteriores o expliquem.
É este mordomo o companheiro fiel de Olivia, através dos séculos.
E através dos séculos, é esta a maior perplexidade dos vampiros de Yarbro, não mudam nada. Levam uma vida rotineira e quotidiana, eventualmente têm de deslocar-se de país em país para que a juventude eterna não os traia, e depois é a vida como todos os dias. Nunca passam pela cabeça destes vampiros as angústias existenciais dos séculos após séculos. Nunca lhes passa pela cabecinha qual é o sentido de tal existência.
Diria mesmo mais, há pouco critiquei Olivia pela solicitude com que se entrega aos homens que ama, mas também os esquece igualmente depressa. Parece-me que estes vampiros não conseguem chorar lágrimas, mas Olivia faz uma espécie de luto a cada um dos amantes, por quem daria a própria vida ainda uns dias antes, e aceita que morram, eventualmente, como se fosse normal que uma alma humana conseguisse sobreviver a milénios de perdas sem achar que já bastou.
Esta leveza, esta futilidade, não me entra na cabeça. Observo os vampiros de Yarbro, divirto-me com o realismo cínico da autora, rio-me nas hilariantes cenas eróticas (sem exagero, são hilariantes, e tenho para mim que só lá estão porque o erotismo vende), impressiono-me com o profissionalismo e a competência da pesquisa histórica (que às vezes consegue pecar por excesso), admiro-me com o rigor espartano com que a escritora divide os capítulos em cena/carta cena/carta cena/carta até atingir as trezentas páginas, e aconselho aos amantes de vampiros que procurem uma leitura agradável. Mas leve.
Não quis comentar um só livro para não incorrer em juízos precipitados, e regozijo-me que no segundo as cenas eróticas já não se repitam tanto em número, mas ao fim da leitura de ambos não posso dizer que em qualquer altura me tenha sentido particularmente empolgada.
Minto. No segundo livro, quase no fim, há um episódio interessante que prometia algo de excitante. Olivia, que apesar de vampira não parece ser capaz de matar um ser humano por meios vampíricos (?), cai nas mãos de um cruzado Hospitalário de sádica reputação que entende ter sobre ela vantagem suficiente para a tornar sua escrava sexual. E o que é que acontece? Olivia deita de fora os dentes e suga-o até ficar enxague? Não. Esconde-se debaixo da cama, por sorte deita mão à espada dele, e mata-o de um golpe. (Peço desculpa pelo spoiler do que pode ter sido a melhor leitura do livro.) Boa, Olivia, mas não era exactamente isso que eu esperava!
Que vampiros estranhos, estes!
Recomendo aos amantes de vampiros (aqueles que são predadores, e bebem sangue a sério, e sofrem de angústias existenciais) que se aproximem com uma valente diminuição de expectativas. Para leitura de cabeceira na certeza de sonhos tranquilos, mas sem chegar ao ponto de dar sono.